memórias a um pequeno

chove em mim, criança
deita em meu colo
que eu disfarço
o quanto você será só
daqui vinte anos

não brinque até o sol se pôr
sozinho com a solidão
batendo faltas em retirada
enfrentando teus vilões

deixa chover em mim
que eu já suporto o frio
você vai ser tão só
tão só de não poder mais
ser tão você

deixa que eu rasgue a cara
quebre os joelhos, me esqueça,
mas te lembre
de nunca crescer assim

vem, que eu te deixo dormir
sem pensar na morte
sem ter que perder o medo dela
sem aprender a conviver com isso,
com você em pânico, com o resto

deixa que eu vou à frente
piso em todos os cascos
com meus pés cansados
depois passe por cima de mim
sem se lembrar disso

v.abreu

sobre a degradação humana

porque essa vista
este chão
me tem tão desperto
por perto
que só escrevo poemas
em poeiras
com meus pés

e desato a
apagar cada verso
com um único dedo
pra saber do tempo
que perco e dos traços
colados em mim

com honras e protestos
desapareço para me restar
como um silêncio tão
mas tão construído
didaticamente
que parece falar
sobre minhas mãos

essa coisa da solidão
passa a ser interessante
e sórdida e complexa
que por vezes perco
o tom e chuto o vento
pra fazer um pouco
de efeito
nas coisas do mundo

só me fica o caminho
das palavras perdidas
e decisões nunca tomadas
mas levadas em frente
sem nunca desobedecer
sempre reverenciar
o parco destino
de não ser

v.abreu

o ontem

o tempo
de tempos em tempos
desfaz tuas horas
reelabora o tempo
de espera

o tempo
não espera
se reconta
encontra
outro tempo

num tempo
de se encontrar
mais tarde
enquanto esse tempo
passa

v.abreu

adjetivos

essa tristeza é sempre minha
faz parte da minha ausência
e completa esse meu egoísmo
em querer ser tão pouco, já sendo

minhas palavras são outras
de uma linguagem outra
que uso de segunda a sábado,
depois me esqueço

são os elogios que me preocupam mais

v.abreu

pra não mais acordar

sempre vai embora com o sopro
com as janelas abertas
e não vem mais o gosto
nem o de ficar

sempre se manda na manhã
enquanto o sono está
divaga aos corredores
toda a solidão

um estreito abraço apertado
deixado na última porta
e o caminhar cortando praças
e o nunca chegar

sempre tão só a tua presença
que a ausência se mete
no meu tempo, trocando a hora
pela honra de não chegar

eu sempre acordo todo dia
para nunca mais acordar
nem o dia, nem o nada, nem isto
me fazem dormir tão bem

v.abreu

mil e vinte e dois passos

é que os sonhos se dissipam,
disse enquanto caminhava,
há alguma coisa deles que
se perdem enquanto as coisas
tendem a acontecer

alguma coisa de lastro,
tempo, tangente, pequeneza,
mas que é fundamental
para que os sonhos corroam
e não sejam mais os mesmos

é que a gente se dissipa,
disse enquanto esperava o sinal,
cada passo que se perde
enquanto os carros passam
a gente também fica

em alguma coisa que impede
que os sonhos todos se realizem
tal qual a gente quis
porque já não queremos
ou já não sonhamos

v.abreu

doismileonze

pois o ano já nem começou
e as coisas bagunçadas
encontram seus lugares
de desespero

despreparo minhas horas
e perco em minutos
todas as sobriedades

trabalhei o ano inteiro
pelo tempo a passar
mais intenso
atrás da sorte que passava

por aqui todos os risos
entristecidos e abraços frouxos
ainda me tinham como amigo

v.abreu

esse seu olhar

é que teus olhos
desaguam todo tempo
por entre meus lábios
desatam medos e silêncios
nos cantos dos dias

teus olhos
desabam o tempo todo
com as noites e vidas
destacam minhas ausências
e o que me falta

teus olhos
nunca me enxergam
e se escondem
enquanto desbravam
teus íntimos

v.abreu

teus pequenos dedos

tua mão tão pequena
de apertar a minha
ganhou esmalte novo
e saiu para baladar

dançou músicas novas
e bebeu duas cervejas
segurou um amor despedaçado
e teu queixo sobre a mesa

teus dedos todos espalhados
tentando coisas para juntar
jurando tanta falta
e o que não há

tua mão viu o sol
tão de perto
e cheirou flor
que não teve

tua mão tão pequena
escreveu nas linhas
motivos de não ser duas
e nem eternizar

formou sorrisos
conteve lágrimas
e colheu da lua
um pedaço de saudade

v.abreu

esse pensamento não vai tão longe

o que te faz a vida
se não cantar teus segredos
em ouvidos baixos
e olhos indiscretos
que correm os escuros?

ou põe a pedra
entre o coração e o desgosto
aperta a parede do céu
enquanto chove poemas
em buracos que nossos passos
pintam nas sombras?

isso que passa rápido
e fere os braços
nos faz deitar sem dormir
a imaginar o futuro
que nunca veio
e o passado que mentimos

ou a canção que fingimos saber
neste claro e tantos instantes
que são se não desmemórias
ou perdições do que não há
do que não vive

v.abreu

essa chuva nunca parou

i.
já não sou tão incisivo
nem canto com os pulmões
ando muito sem ir longe
e deixo vago o tempo
para me esquecer
como fazer todas as coisas
sem nunca ter feito

ii.
há uma praça logo abaixo
onde penso passar algumas horas
mas meus passos são mais rápidos
e as distâncias tão próximas
que finjo descansar enquanto corro
pois a chuva cai

iii.
sobre nós
ninguém há de falar
ou convidar para a festa
desta sexta em que há dança
pois mal nos levantamos
e sorrimos pouco enquanto
todos estão tão entrosados

iv.
já não durmo noite inteira
nem sou tão bom quanto ano passado
tenho guardado sobras e moedas
mas que não enchem este mês
e nem estas pessoas
das quais me canso repentinamente

v.
pode ser no sábado
antes que anoiteça
e espera esvaziar
a praça e seus bancos
e meus sonhos

v.abreu

para quem me espera

ela me era
tão impulsiva
que impossível
não notar
o movimentos
mais oblíquos

quase tão turvos
e recônditos
quanto acordar
antes das seis
sem precisar
viver

ela me era
tão inteira
que inclusive
me era toda
abraços
e palavras
que não guardei

era de um riso.
logo às quatro e vinte
antes de se despedir
e nem ir

v.abreu

a te acompanhar

não há olhos
só seus lábios
pintam o desespero

há uma desgraça
entalada
ninguém pode gritar

seu sono remoto
eu te amo baixo
me escondo em defeitos

posso até me engordar
tirar os cabelos
nunca deitar
sempre ir embora
nunca te olhar
sempre passar
nunca falar

há um cinismo
nos meus atos
em cada palavra

o dia já foi
o amor não veio
a felicidade inexiste
o dinheiro não há
a vida é longa
o colchão raso

v.abreu

racismo

e somos tão pretos
de tão negros
que em aspectos de cor
nem nos vemos

nem sabemos
de onde vem
nossa pele

que se esquenta
ao menor abraço
que se esfria
de cansaço
que se esquece
de esquecer

e somos tão negros
que esquecemos
os pretos
e lemos preceitos
preconceitos e direitos
com os olhos mais turvos
nesse beco sem luz

nem ao menos sabemos
se essa cor que nos é
é também de nós mesmos
ou de tudo o que deixamos
de ver

v.abreu

décimo terceiro ato

era um domingo, querida,
sua carta havia chegado
há alguns dias e chovia
não lembro a que horas
me sentei para ler teus
choros e lamentações

àquela hora eu ainda te amava
e rasgava papel em pequenos
pedaços pelo chão da sala
deixei algumas letras soltas
afim de me lembrar sentidos

à tarde o amor já acabara
e eu já não pisava ao chão
as coisas já todas tomadas
do meu desespero da sua solidão

ficou isso de te chamar de querida
e seu sorriso desencontrado de ontem
além de todas as horas reunidas

esperando o tempo e o passo largo
ao mais breve distante ato

de restar palavras estremecidas

v.abreu

declarações públicas de afeto

meu carinho é raro
de se ver
esconde em escuros
elabora fugas
e disfarça seus risos
em silêncios

não tem dado muito amor
nem espalhado prazer ou dor
quase morre de tédio
e não sabe abraçar

fala pouco,
treme menos ainda
não brilha
nem rejeita

estabelece uma distância
especialmente comigo
e nem me escreve cartas
é analfabeto, atônito e turvo
ninguém sabe se
ninguém sabe de

v.abreu

do distúrbio que me acomete

pânico é cair
sem sentir o chão
e descobrir todas as dores
que invadem a cabeça
de uma única vez

e então as ruas
parecem ainda mais curtas
e o tempo inexiste: não passa

as pessoas apenas lembram
elas mesmas numa mesa
sempre a rodar

suas mãos formigam,
seus pés pesam,
suas pernas tremem,
seus olhos viram,
seus medos permanecem

e o pânico fica entre lençol, cobertor e corpo
invade travesseiros e sorrateiro entre cortinas
desatina sombras e barulhos a conviver com seu
silêncio e zunidos de sangue disparando em veias

v.abreu

quando for para amar mais de uma vez

o amor que tinha guardado
vai-se embora
tal qual pensamento, ideia, abraços
foge pelo ralo
corre em busca de tempo

tenho dois dias e uma hora
para me ver colado
ante ao espelho
respondendo perguntas
todas existenciais

deixar claro que não vai dar certo
que o mundo acaba numa sexta
enquanto sai para não dormir
deixar as coisas entre portas
que logo mais vão embora
sem se despedir

há uma carta na terceira gaveta
antiga em suas letras
que nada me diz
e entoava perfumes e lembranças
que sufocam e permanecem, sufocam e permanecem,
mesmo sufocadas e permanentes

quanto ao amor, bem,
se o é, atravessa ruas
sem olhar os sinais, os carros, as mulheres,
e vai a outras cidades
e desaba em oceanos

v.abreu

o relógio que corre o pulso

quando fosse o dia
eu chegaria mais cedo
e já teria ido
caminhando, mesmo
cortando arbustos do caminho
e chutando placas

virando sempre à esquerda
e perdendo a hora
a hora certa
de me virar

quando fosse a hora
eu atrasaria
pela chuva ou suor
que inventei ao acordar
meio tenso, meio intenso
desbravando cobertores

tirando cortinas das janelas
e chaves das portas
sem correr, sem saber
porquê

quando eu não saber
do silêncio de agora
se cair ou não
em pé ou morto
apertando o asfalto ou aprendendo a voar
te digo as coisas mais intensas dessa tarde

v.abreu

desgosto

me apetece cair em descrédito e desacreditar.
deixar as coisas serem como elas gostariam,
sem ter isso de gostar.
sair de medo, fazer miséria.
as coisas todas postas dispostas pelo chão.
a pisar em cada uma delas.
escolher o que ser.
morrer ou não morrer não chega a ser questão.
torna-te poema. torna-te sofrimento que merece.
só de pensar nos buracos que o vento provoca
no meu tempo.
que eu conto, sem nenhum verso.
faça-te inteira, estrofe sem rima.
correndo. correndo. correndo.
uma vez a vida, outra a tarde.
inteira para ser noite, para ser breve.
para então nem ser.

v.abreu