poema para Katherine

é de um riso com uma pinta
de quem é dona da vida
dança com isso
canta comigo

de um sonho que se tem com coração
aperta minha mão
se encaixa no próprio jeito
deita no meu peito

é dos pés que balançam
como se sempre em frente
sempre entende essa mania
de ser tão grande menina

é dessa beleza inteira
desse amor imenso que se enche
que se faz todos os dias
pra ser assim tão linda

de abraço que acomete e repete
todo gesto de carinho
desde o olhar repentino
pra me fazer seu rapaz

v.abreu

morada

tinha uma casa no meio do nada
de quando a gente nem morava
passava de porta em porta
contava histórias das paredes
já sem tempo, sem medo

era um nada no meio da casa
de janelas escancaradas
de onde se vê o dia
passar lentamente
no meio das árvores verdes

o céu ainda era mais azul
do que nos outonos de outrora
a tarde talvez fosse embora
no chão que bate de tão batido
nas veias e vielas dilatadas

a gente tinha apenas uma noite
e pouca coisa para se lembrar
entre as palavras guardadas
no quintal daquela casa
que já era o mundo inteiro

v.abreu

o preço

quando você acha
que não vale nada
quanto você acha

onde você procura
o valor que vale
quem você procura

como você vale
o quanto você acha
por que você acha

então você procura
porém não acha
o que você vale

quem você acha
que vale o quanto
você vale

e não vale
quando você acha
o que procura

v.abreu

repouso

se a tarde fosse sua
estava cantando na sala
mãos dadas comigo
sorrindo de canto
estava cheia de abrigo

bailarina dançando
como se coisa da gente
brincando de dar nomes
aos insetos da parede

as girafas contam piadas
a gente não entende
troféus talvez fossem tótens
não fossem as cores
junto a todas fotos

se a tarde fosse sua
era também minha
companhia

v.abreu

desses futuros

as perguntas estavam nas vírgulas
esperando próximas palavras
exclamavam suas dúvidas
sem argumento algum

tropeçam enquanto o sol abraça a lua
as tardes caíram de uma só vez
entre sofás e chuvas
sem reticências

não sabem de onde vem
nem quando saem
talvez fossem breves e pequenas
entre os penduricalhos da sala

talvez imensas de não caber na mão
ou frases únicas
cheias de vocativos

mas sem tempo
pra romantizar
as horas

v.abreu

cinzas

chegou morrendo ao asfalto
a alegria de carnaval
arrastando pela rua a quarta-feira
quando ainda domingo
no meio da folia

pediu passagem e não passou
do carnaval
era hora de cinzas
nessas ruas já vazias

no meio da gente que não se vê
há tanto tempo
abraço aqui ou lá
tanto faz

ia cantar, ia cantando,
ia sorrindo pela via
que balançou antes de velar
teu sono, teu sonho, tua dança

caiu no meio do caminho
já não sabia sambar
nem de outra marcha
nem de samba de paz

v.abreu

enquanto estão de fones de ouvido

a gente chegava cedo
mas já era tarde
todos estavam sentados
esperando o sermão
cassetete cima a baixo

a gente ainda corria
mas nunca alcançava
o direito de se ir

bombas logo ao lado
chutes e socos em ideias
que antes eram mais bonitas
antes de pintarem em única cor

agora nem mais sorrir
nem mais empunhar, pular, conter
agora apanhar por bater
por dizer o que engasga

a gente fazia tudo certo
mas já estava errado
por tentar outra ordem
por tentar

v.abreu

natal

era quase natal
não fosse a descrença
as panelas no fogão
muito pano no chão
a ceia dos outros
os presentes dos outros

nas falas, a presença de deus
um feliz natal com os seus
depois de ir embora
se o ônibus passar
vai passar

essa angústia
esse tempo
essa hora
não foi às compras
não foi presente
é o filho que chora

mas vê tanta coisa
tanto pacote:
sobrinha, amigo, afilhado, nora, genro, sogra
não vai passar
o forno que não esquenta
acolhe as lamúrias
engole as lágrimas

v.abreu

mim

andando no escuro
tropeço no mim mesmo
que se esconde ao chão

acabrunhado de estar tão só
me junto ao mim mesmo
pra desfazer companhia

me expulsar dali
arrumar outro chão
que não seja tão meu

pra me fazer invasor
do espaço de um tamanho
que deixaram mais frio

já não estou mais em mim
nem ali, nem no chão
tropeço agora em cantos

bem já abandonados
e acabados como o mim mesmo
que hora me habita todo dia

nunca me achei
só me perdi
de tão tropeçar em mim

v.abreu

quantas noites

como quem chega perto
se vai calado
brigando com o escuro
fingindo assombração
tem uma tese sobre passos
e se apoia na ponta dos pés
como quem vai dançar e cair
até sair, até sair, até saí

como quem enxerga
vai fechando os olhos
até ver a janela e luzes da cidade
e seus pensamentos de quem dorme
pouco a pouco se cobre
e descobre o frio das veias saltadas
como quem vai explodir
até sumir, até sumir, até sumi

como quem respira
vai engolindo o ar
até engasgar
com o vento sul que chegou depressa
como quem apressa o tempo
e o mau chegar
que nunca chegou antes de avisar
a hora do soco
até apagar, até apagar, até apag...

v.abreu

quieto

se segura no silêncio
impede o estalar dos dedos
o roçar dos pés com o espaço
apenas o ar faz barulho de vento

recorta palavras letra a letra
como quem esquece um poema
que nunca ninguém leu
feito estrela em ponto cego

não diz nada
nunca há nada a dizer
se esconde no que não diz
se revela quando se esconde

apenas deixe como está
sem mexer com as palavras
sem fazer qualquer questão
de sair desse lugar

v.abreu

minha cabeça

da minha cabeça sai modas e rotas
sai e não vai voltar
pra almoçar

da minha cabeça sai notas e rodas
um parafuso cai
não vai voltar

da minha cabeça revolucionária
vai moldar suas frases
vai colar seus dentes
vai abrir seus caminhos
vai desafiar

a sua cabeça sai dos seus trilhos
não vai mais um minuto
é até querer demais
do que você pode dar
na sua cabeça

a sua cabeça sai da minha cabeça
parece muito mais
do que imaginar
a sua cabeça entra na minha cabeça

da minha cabeça
da sua cabeça
eu sei a beça

v.abreu

do meu tamanho

vai ser grande
deixa as coisas do lado
se levante para dançar
vai se levando de lado
fora de ritmo até se achar

esconda as pequenezas
em versos mal rimados
e nos fundos dos sofás
depois sorri exagerado
inventa duas histórias
pra depois desinventar

seja maior ainda
que esse salto, essa pedra, esse caminho
ande mais longe que o destino
deixa ele pra trás
que de lá não virá nada
que já não fosse vivenciar

vai ser imenso
até desacordar
num breve lapso de tempo
quando tudo começar

v.abreu

na pele

um tanto de ódio no abraço
mãos dadas com o que se vai
tantas ruas sem caminhos
e estes sem ninguém
e este como a gente

tão ninguém como todos
num universo contínuo de desagravos e encantamentos
com alegrias tão pequenas
insanidades lógicas
e uma música que aguentamos no som ambiente

somos todos tão breves
como nossas ideologias e devaneios
tanto quanto pelo tempo que aguentamos
nosso olhar mais baixo e palavra mais curta
enquanto damos bons dias

suportamos tão pouco
mas ainda aguentamos tantos
especialmente tempo e profecias
e ainda as ideias que faltam

v.abreu

tenho muito a escrever

precisamos até de doces
e sonhos para morrer
vender coisas caras
para ganhar anos

quantos pés para poder voar?
enquanto de joelhos sobem escadas
e de humanos vencem na vida

nossas derrotas são uma festa
cheia de parabéns e afins
quando caímos na dança

quantos beijos para uma boa noite?
enquanto as mãos atadas
se envolvem com o silêncio
das breves reticências

v.abreu

eu

que sempre me fiz de longe
sempre me vi de escuro
guardei palavras minhas na sua boca

eu que nem nasci naquele dia
demorei todo meu tempo
de te ver chegar
nascendo

construí escadas para me encostar
enquanto você se arrumava
de flores alaranjadas
em mãos dadas e caminhar

eu rabisquei alguns versos em você
que se formaram passos
que se desenharam em dias
que a gente passa nas janelas

v.abreu

interpretação

diz que não é assim
convença as ruas
os postes e o desequilíbrio
das forças naturais

de que o tombo é voar
mais baixo que sonhar
de que círculos são longos
demais para o mesmo lugar

prove suas matemáticas
com tabuadas antigas e descascadas
onde falta o quatro e o oito é três

fala baixo que o segredo
já está publicado e não tem
mais qualquer regra
que lhe dê direito de resposta

está tarde demais
já na madrugada
foi longe demais
no primeiro passo

mas diz que é diferente
que entendeu tudo errado
isso de desentender
que vai desenhar e desdenha

que vai dialogar e se cala
que vai se perder e aceita
que vai se magoar e ri
que vai crescer e deita

já está tudo errado
essa prova e o boletim
não tem nota nem notícia
mas não é bem assim

v.abreu

timidez

a gente envergonha
toda essa gente
que envergonha
a gente

v.abreu

trânsito

e aí eu me faço de contrário
corro rio, pulo mato
escancaro meus dois pés
no seu mau jeito

faço duas coisas
ao mesmo tempo
cego e céu
olho e carro

meu asfalto se enche de buracos
que entopem a cidade
e seus parques

vou mais longe quando paro
esqueço os olhos ligados
vejo outros horizontes
mesmo sem pegar o sol

sou todo ouvidos
mas falo mais
quando vou à esquerda
a contragosto dos demais

v.abreu

pai

sei lá o que dizer
a gente mal se vê
se entreolha no tempo
eu correndo 
esperando lançamento
pra fazer o gol

hoje tem comemoração
tem? não fui, não vou
apenas passo por voz
sem muito pra falar
mais dúvidas
que ponto finais

ontem jogou vila
eu nem disse
mas foi como a gente
ninguém andou
não teve gol
a gente deixou pra lá

a gente ficou lá no sobrado
descarregando caminhão
enchendo de churrasco
pegando as cervejas
pra você beber
o sorvete pra mim

ou as idas ao mercado
escolhendo bobagens
comendo pastel
mas naquele sobrado
correndo pra te ver chegar
tropeçando nos degraus
errando o gol

v.abreu